Uber: Robotaxi é complicado, então vamos focar em delivery?
A “Didi internacional”, Uber (UBER.US), divulgou antes da abertura do mercado dos EUA na noite de 6 de agosto, seu relatório financeiro do 2º trimestre de 2026. De modo geral, tanto o volume de negócios quanto o crescimento absoluto do lucro foram bons, mas apenas cumpriram as expectativas do mercado, parecendo um pouco mornos. As previsões para o próximo trimestre também seguem essa tendência, sem grandes desvios em relação às expectativas.
Com a ameaça das tecnologias de direção autônoma ainda pairando sobre o principal negócio da empresa, o mercado precisa de resultados acima do esperado para restabelecer a confiança. Ou seja, no momento, a ausência de boas notícias equivale a notícias ruins. Especificamente:
1. Crescimento lento do valor nos negócios principais: Neste trimestre, o negócio principal da Uber (corridas + delivery) teve um crescimento de 24% no valor dos pedidos em relação ao ano anterior, ligeiramente acima das expectativas do mercado em 1 ponto percentual. À primeira vista, a taxa de crescimento parece ter desacelerado em relação ao trimestre anterior, mas isso se deve principalmente ao câmbio; a taxa de crescimento real dos pedidos teria acelerado levemente.
Vale notar que o crescimento do volume de pedidos nos negócios principais realmente desacelerou, ficando em 18% neste trimestre, acumulando uma queda de 4 pontos nos últimos dois trimestres. Isso realmente merece atenção — a demanda (especialmente por corridas) está realmente enfraquecendo?
Em outras palavras, manter a taxa de crescimento do GBV dependeu principalmente do aumento do ticket médio. Mas segundo a teleconferência, o aumento do ticket médio não foi devido ao aumento dos preços, mas principalmente ao maior peso do delivery (com ticket médio maior).


2. Receita de corridas parece estagnada, mas é estável na prática: No detalhamento, a receita da divisão Mobility cresceu 20% desconsiderando o efeito cambial, praticamente igual ao trimestre anterior e alinhado às expectativas. Mas, como sugerido acima, também parece depender mais do preço do que do volume.
Outro ponto: a receita de Mobility cresceu apenas 1% neste trimestre. À primeira vista, fica aquém das expectativas, com a taxa de realização de pedidos recuando mais de 500 bps. Segundo a empresa, cerca de 400 bps desse impacto se deve à mudança no critério do Reino Unido (de receita bruta para líquida). Além disso, desde o trimestre passado, as economias nos seguros têm sido realocadas em subsídios aos usuários, continuando a prejudicar a taxa de realização.
Mesmo assim, o lucro operacional ajustado do segmento cresceu 28% em relação ao ano anterior, superior ao crescimento do volume de pedidos, mostrando que, excluindo ajustes de critério, a realização real da Uber Mobility não piorou.


3. Delivery mais forte, acelerando: Em comparação, o delivery teve desempenho ainda mais forte, pedidos sob taxa fixa de câmbio cresceram 25% em relação ao ano anterior, acelerando 2 pontos sobre o trimestre anterior. Receita cresceu ainda mais, 28%, ligeiramente acima do esperado pelo mercado. Retirando o câmbio, o crescimento foi de 26%, superior ao dos pedidos, indicando melhora marginal da taxa de realização do delivery.


4. O segmento de fretes começou a se recuperar? Outro destaque é o segmento de fretes, marginalizado desde 2022, que surpreendeu com alta de 26% na receita, bem acima da expectativa do mercado — que era de um dígito.
Anteriormente não havia indícios ou reportes de melhora do segmento de fretes da Uber. Segundo a empresa, houve boa venda cruzada entre corretagem pura e operação direta (carregamento) no Freight neste trimestre, o que pode explicar o crescimento inesperado da receita.
A corretagem pura normalmente contabiliza apenas comissões; já a operação direta considera todo o valor do frete, o que infla o valor nominal da receita, mas tem impacto muito menor sobre o lucro.
Foi apurado que o lucro operacional ajustado do Freight continuou negativo em cerca de US$ 24 milhões, sem grande variação ao trimestre anterior. Por isso, acreditamos que a aceleração da receita do Freight se deve a mudança de critério de contabilização, sem mudança material substancial.

5. Margem de lucro segue em crescimento constante: Em termos de lucratividade, o lucro operacional ajustado na nova base, o segmento Mobility entregou margem de 7,6%, aumento de 0,3 ponto ano contra ano, mas queda leve de 0,1 ponto no trimestre. Ou seja, o crescimento do lucro é bom (28% anual), mas alocação de economia com seguros reduz as margens.
O Delivery também teve avanço em lucratividade, com margens e lucros aumentando em todas as comparações, com alta de 38% nos lucros, notadamente mais forte.
No geral, pela base comparável anterior, o EBITDA ajustado total da empresa foi de US$ 2,82 bilhões, alta de 33%, superando o mercado que esperava crescimento de cerca de 31%. Também superou o crescimento de 24% do volume total de pedidos, o que mostra tendência de elevação contínua na margem total.




Opinião da Pesquisa Golfinho:
1. Resultados do trimestre são sólidos, perspectivas também são positivas
No geral, não há grandes falhas nos números da Uber neste trimestre, com todos os principais indicadores cumprindo ou superando levemente as expectativas. Em tendência, os resultados foram estáveis em relação ao trimestre anterior. Crescimento de 24% em pedidos e 28% em lucro total são bons em termos absolutos.
A única ressalva é a desaceleração persistente do volume de pedidos do principal negócio, muito provavelmente puxado para baixo por Mobility. Vale vigiar se a demanda está mesmo mais fraca, ou se já se nota o impacto dos robôs-táxis autônomos.
Nas projeções, a empresa prevê crescimento estável para o próximo trimestre. Espera volume total de pedidos entre US$ 58,25 bi e US$ 60,25 bi, implicando crescimento de 18%~22% em câmbio constante, ligeiramente abaixo do atual, mas em linha com o guidance anterior. Ou seja, o próximo trimestre deve repetir a performance deste.
Já a orientação para o lucro (ajustado EBITDA) é de US$ 2,86 bi a US$ 2,96 bi, crescimento anual de 29%, acima dos 28% esperados pelo mercado. Também supera o crescimento do volume de pedidos, indicando que a margem deve continuar subindo. Portanto, crescimento de receita e lucro devem seguir sólidos.
2. Tese de investimento & movimentos recentes
Como se vê, não há grandes problemas estruturais nos fundamentos da Uber. Então por que a ação caiu mais de 5% após os resultados? Basicamente, há dois fatores importantes para a narrativa atual: a ameaça persistente dos táxis autônomos e as recentes investidas da Uber em aquisições no delivery.
a. Ameaça dos autônomos persiste: Recentemente, dois fatos foram destaque: primeiro, a Waymo — líder do segmento — anunciou no final de julho que considera encerrar a parceria com a Uber em Austin e Atlanta (passando a operar de forma independente).
Segundo, Uber e Nvidia anunciaram parceria para construir um ecossistema de autônomos, com a Uber responsável pela gestão de frota e plataforma, e Nvidia, pelo desenvolvimento da tecnologia (chips, modelos de IA, sensores etc). Juntos, isso mostra que a concorrência em autônomos é tanto mais diversificada quanto intensa/exclusiva.
Vendo o movimento da Waymo, os desenvolvedores mais avançados provavelmente optarão por operação própria, buscando maior margem e autonomia, o que não é positivo para a Uber. Já a presença da Nvidia garante que sempre existam fornecedores fortes e aberto a múltiplos players, impedindo monopólio de um único desenvolvedor fechado.
Ou seja, a competição e o desfecho dos autônomos dependerão de quem lidera ao final: os integradores, como Waymo/Tesla, ou provedores de tecnologia como Nvidia.
Neste sentido, a visão da Pesquisa Golfinho é cautelosa: se a Uber não tiver domínio de todas as tecnologias essenciais, dependerá de terceiros.
b. Aquisições no delivery: Talvez pelo risco crescente em Mobility, a Uber claramente busca expandir sua participação em delivery para reduzir dependência da divisão de corridas.
Recentemente, a Uber concluiu a compra da Trendyol Gp e da Getir, ambas turcas, e agora lançou uma oferta ainda maior pela Delivery Hero.
No total, a Uber ofereceu US$ 14,8 bilhões (valor de 100% do equity) na compra da Delivery Hero; descontando a fatia já detida pela Uber, restam US$ 13,7 bilhões a pagar.
c. Visão sobre a compra da Delivery Hero:
O que traria a aquisição? Segundo divulgado, após a conclusão, a Uber entra rápido em 20 mercados novos, saltando de 79 para 99 países. Usuários ativos e pedidos totais aumentam de 1/5 a 1/4, e o delivery passa a responder por 56% dos pedidos totais (dado para 2025).
Em suma, a compra da Hero acelera a expansão de delivery da Uber e reduz sua dependência das corridas, o que é positivo estrategicamente.
Mas os investidores ainda veem a compra com ceticismo, por alguns motivos:
Primeiro, a qualidade dos ativos da Delivery Hero não é das mais altas. Nos últimos dois anos, a Hero cresceu pedidos a pouco mais de um dígito (Uber Eats cresce 20%), e a margem Ebitda da Hero mal ultrapassa 2%, enquanto a da Uber Eats fica entre 3% e 4%. Ou seja, a aquisição tende a diluir o crescimento e a margem do delivery da Uber.
Além disso, a avaliação que a Uber paga pela Hero não é muito inferior à que seu próprio negócio vale no mercado.
Outro ponto é o impacto sobre o caixa. A empresa havia prometido usar metade do fluxo de caixa livre anual em recompra e dividendos.
Mas, por conta da aquisição, a Uber recomprou só US$ 500 milhões em ações no 2º trimestre (contra US$ 3 bilhões no 1º). Por outro lado, gastou US$ 4 bilhões adquirindo parte da Hero no mercado antes do anúncio oficial da compra.
Obviamente, a gestão prometeu retomar o foco em recompra nos próximos meses. Mas, por nossas contas, se o valor da aquisição fosse todo para recompra, o upside no EPS seria de cerca de 6,8%. Segundo a empresa, a meta é gerar US$ 1,2 bilhão em sinergias em 18 meses após a compra; se estimarmos três anos para isso, aumento no EPS seria de só 6,4%.
Ou seja, usar o caixa para comprar a Hero, de qualidade duvidosa, rende menos do que devolver dinheiro para os acionistas. Parece que a gestão está “desesperada” para reduzir a dependência do negócio de corridas.
4. Portanto, a ameaça à divisão de corridas vinda do avanço dos autônomos é real e improvável de dissipar, podendo até piorar.
Já no delivery, a compra ajuda a expandir presença, o que é bom no longo prazo, mas o retorno para os acionistas no curto e médio prazos é baixo — seria melhor distribuir o caixa. No longo prazo, só terá valido a pena se a Uber conseguir elevar o desempenho operacional da Hero, aproximando seu crescimento/margem aos do Uber Eats atual.
Não há motivos claros para sustentação do case de alta, devendo a ação depender de eventuais surpresas positivas de lucro para alinhar-se ao valor de mercado.
- FIM -
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