Incerteza política em Washington desperta preocupa ções e reacende debate sobre a estratégia de negociação "vender os Estados Unidos"
Fonte: Transmissão Global de Mercados
Uma série de decisões recentes de política econômica tomadas em Washington nas últimas duas semanas está provocando debates entre investidores globais de títulos e câmbio sobre se está na hora de retomar a estratégia de “venda dos EUA” do ano passado.
Primeiro, o presidente do Federal Reserve, Kevin Walsh, prefere reduzir a comunicação pública, o que gerou dúvidas sobre o compromisso do banco central em combater a inflação, especialmente considerando o número extraordinário de autoridades que apoiam um aumento imediato das taxas de juros.
Em segundo lugar, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, autorizou os EUA a ajudar o Japão a sustentar a cotação do iene — a primeira intervenção coordenada deste tipo em quase 30 anos. Apesar de a intervenção ter ocorrido através do euro, evitando impactos diretos no mercado de títulos do Tesouro americano, isso ainda pode pressionar o dólar.
Diante de preocupações fiscais, guerras comerciais e conflitos no Oriente Médio que podem acelerar a inflação, com a política dos EUA ficando novamente imprevisível, alguns participantes do mercado estão reavaliando sua disposição de manter posições em títulos do Tesouro norte-americano e em dólares.
A rentabilidade dos títulos do Tesouro de 30 anos já ultrapassa os 5%, o nível mais alto desde 2007. Ao mesmo tempo, embora taxas mais altas nos EUA normalmente sustentem o dólar, nos últimos 30 dias o dólar enfraqueceu frente a quase todas as moedas do G-10.
“Bessent e Walsh causaram um golpe duplo nos mercados globais, impossível de ser ignorado pelos investidores”, afirma Rajeev De Mello, gestor de portfólio macro global da Gama Asset Management. Ele está vendendo títulos do Tesouro dos EUA e dólares, em parte devido à incerteza das políticas.
“Eles precisam começar a precificar o risco político na curva do dólar e dos títulos do Tesouro — e de fato, já estão fazendo isso. É o chamado prêmio de risco do governo Trump”, diz ele.
A estratégia de “venda dos EUA” ganhou destaque em abril do ano passado, quando as ações tarifárias de Trump provocaram vendas simultâneas de dólares, ações e títulos do Tesouro. Apesar da pressão ter arrefecido rapidamente, isso abalou uma das crenças de longa data do mercado, de que os EUA podem sempre contar com o status do dólar como moeda de reserva e com um mercado de capitais profundo para financiar o crescente déficit fiscal.
Desta vez, o cenário é ainda mais complexo. As ações americanas continuam robustas, com os ganhos das empresas de tecnologia impulsionando o índice S&P 500 a níveis recordes. Os fluxos financeiros também mostram que o mercado ainda confia nos EUA. Dados do governo americano mostram que, até maio, investidores estrangeiros detinham US$ 9,4 trilhões em títulos do Tesouro, alta de 4% em relação ao mesmo período do ano passado.
No entanto, nos mercados de títulos e câmbio, alguns investidores globais alertam que, se o Federal Reserve não apresentar uma estratégia mais clara de combate à inflação, seu controle sobre o mercado de títulos pode enfraquecer, e qualquer iniciativa direta dos EUA para apoiar o iene pressionaria o dólar. Sendo o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro dos EUA, o Japão poderia, caso precise vender parte de sua posição de mais de US$ 1 trilhão para levantar recursos para intervenção, impactar esse mercado.
“Essas mensagens contraditórias não ajudam no fluxo de capital para os EUA”, diz Carol Lye, gestora da Brandywine Global Investment Management. A empresa mantém visão negativa para o dólar no médio prazo.
“Com Bessent agora também nesse grupo e sugerindo que o iene talvez devesse estar mais forte, isso reforça ainda mais nossa expectativa de enfraquecimento do dólar”, afirma ela.
Desde o pico de junho, o índice à vista do dólar da Bloomberg caiu cerca de 2%.
Bessent defendeu a decisão dos EUA de apoiar o iene, dizendo que a desvalorização da moeda japonesa poderia levar a uma depreciação generalizada das moedas asiáticas. Na terça-feira, ele afirmou que Washington “fará todo o possível” para apoiar Tóquio para beneficiar a economia americana e estabilizar os mercados globais.
Quando questionado sobre relatos de que euros foram usados para comprar ienes durante a intervenção da última sexta-feira, Bessent afirmou que autoridades americanas mantiveram contato próximo com a Europa, explicando que se tratava apenas de uma “reconfiguração das reservas cambiais”.
Essa intervenção já gerou preocupações sobre o futuro do dólar.
“Investidores odeiam incerteza”, diz Steve Brice, diretor global de investimentos da divisão de Gestão de Patrimônio do Standard Chartered. Ele prevê que o dólar cairá entre 3% e 4% nos próximos 12 meses, destacando que as ações do governo e outros fatores estão enfraquecendo a vantagem estrutural do mercado americano.
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