Palantir: correção de falhas, ação de fé reviveu totalmente?

O desempenho do segundo trimestre compensou a desaceleração do crescimento da receita das empresas americanas no primeiro trimestre, mantendo o ritmo acelerado de expansão. Tanto o reconhecimento de receita quanto o acúmulo de pedidos continuaram em forte aceleração, refutando fortemente as narrativas pessimistas de “substituição por modelos fundacionais” como Anthropic.
Em detalhes:
1. Guias continuam em alta: A receita do segundo trimestre acelerou novamente, crescendo 93%; a orientação da empresa para o terceiro trimestre aponta para um crescimento de cerca de 83%. A previsão de receita para o ano foi revisada para cima, ultrapassando US$ 8,1 bilhões, embutindo um crescimento anual de 82%. As projeções de lucro operacional ajustado e fluxo de caixa livre também foram elevadas, todas superando as estimativas consensuais do mercado.
Embora a orientação anual indique uma tendência de desaceleração no segundo semestre, isso já ocorreu mais de uma vez; parecer que a “orientação prudente” tornou-se um padrão recorrente da gestão da Palantir. Ao longo de dois anos acompanhando a empresa, ficou claro que o tom ousado do CEO nas cartas aos acionistas contrasta fortemente com o espaço deixado nas orientações financeiras.
2. Mercado americano: negócios comerciais bombando, governo sustentando a base
A dependência do mercado americano continuou a subir para 81% no segundo trimestre, impulsionada não apenas pela expansão da demanda governamental (refletindo a penetração total do sistema inteligente Maven no governo dos EUA), mas também pela pujante demanda comercial (crescimento de receita na ordem de 150% no período, e o valor dos novos contratos comerciais assinados nos EUA aumentou subitamente em US$ 950 milhões, provavelmente devido à demanda pelo AIPCon 10 lançado em junho). Não há indício perceptível de erosão causada por grandes modelos de IA.
A gestão não ajustou para cima a orientação de crescimento de mais de 120% na receita comercial americana para o ano, o que implica uma desaceleração para 68% no segundo semestre. No entanto, considerando o histórico de orientação conservadora da empresa e a forte demanda, acredita-se que não é preciso se preocupar excessivamente.
3. Mercado internacional: crescimento estável, mas teto limitado
A receita internacional totalizou cerca de US$ 360 milhões, um aumento anual de aproximadamente 37%. A receita comercial internacional ficou em torno de US$ 180 milhões (+25%), praticamente estável em comparação ao trimestre anterior – indicando que a demanda segue em recuperação. Especialmente na Europa, as empresas continuam desconfiando da estratégia de “American First” da PLTR, levantando preocupações quanto à segurança de dados. A receita governamental internacional também gira em torno de US$ 180 milhões (+43%), sendo principalmente consumo e reconhecimento de contratos já existentes no Reino Unido.
Esses ruídos externos à demanda básica ainda persistem. Por exemplo, a mídia britânica segue criticando o contrato entre o sistema de saúde NHS do Reino Unido e a Palantir. Embora o contrato tenha o valor de apenas US$ 60-65 milhões (menos de 1% da receita anual da Palantir), a opinião pública pode ainda trazer entraves a futuras parcerias. Esta questão não é um caso isolado – em um contexto mundial de maior atenção à soberania nacional, é possível que o teto de internacionalização da Palantir seja limitado.
4. Indicadores prospectivos: o futuro ainda depende das empresas americanas
(1) Perspectiva de médio e longo prazo: TCV, RPO e número de clientes: O valor total dos contratos assinados e em execução (TCV) chegou a US$ 3,37 bilhões no segundo trimestre, um aumento líquido de US$ 960 milhões, principalmente proveniente da alta demanda de empresas americanas devido ao AIPCon.
O RPO (parcelas de contratos irrevogáveis ainda não reconhecidas) subiu para US$ 4,9 bilhões, aumento líquido de US$ 450 milhões; o RPO de curto prazo atingiu US$ 2,09 bilhões (+105%), crescendo ainda mais rápido, mostrando que a proporção de pedidos que poderão ser rapidamente reconhecidos como receita aumentou.
O número total de clientes aumentou em 42 ao todo, para 1.049, com o crescimento concentrado em clientes corporativos americanos. Neste trimestre, houve ainda o acréscimo de três clientes governamentais, sinalizando a maior penetração do sistema inteligente Maven nos departamentos governamentais dos EUA.
(2) Indicadores de curto prazo do mercado: destaque para Billings e NDR: Os Billings do segundo trimestre chegaram a US$ 2,07 bilhões, alta anual de 88%. O NDR foi de 157%, subindo 7 pontos em relação ao trimestre anterior, demonstrando que clientes antigos seguem expandindo o escopo de uso e aumentando o valor dos contratos.
(3) Execução mais rápida e aprofundamento dos pagamentos dos clientes:
Entre os pedidos completados neste trimestre, a Palantir acelerou consistentemente a entrega. A demanda por contratos acima de US$ 10 milhões também explodiu. Isso mostra que suas soluções estão mais maduras e completas, e que os clientes estão migrando do “bootcamp” para adoção em larga escala e implantação profunda dos produtos.
5. Margem bruta melhora de forma estável, mantendo alta eficiência com crescimento acelerado: A margem bruta do segundo trimestre aumentou 4 pontos percentuais ano a ano, mantendo a tendência de melhora e estabilidade em relação ao trimestre anterior. O aumento gradual do ticket médio mostra a cooperação cada vez mais profunda com clientes de larga escala, alavancando a melhoria contínua da margem bruta ano a ano.
Além disso, as três despesas operacionais cresceram bem menos do que a expansão da receita; os incentivos em ações também retraíram. O lucro operacional foi de US$ 910 milhões, margem operacional subiu 1 p.p. para 47%. Excluindo SBC, a margem operacional chegou a 62%.
6. Indicadores de resultado e novos pedidos


Opinião do Analista
Esse relatório financeiro pode ser considerado uma vitória temporária contra o argumento dos pessimistas quanto à ameaça dos grandes modelos de IA. Algumas pesquisas setoriais já indicavam que, especialmente os clientes empresariais tradicionais, não veem os grandes modelos como substituição dos produtos Palantir. Mas, após o AIPCon 10 em junho e a revelação dos dados reais de pedidos, só agora a expectativa começa a ajustar.
No campo do governo americano, a Palantir apresenta amplo diferencial competitivo na oferta de produtos e serviços e canais de vendas completos. Não só o Maven está se expandindo além do Departamento de Defesa como, durante o primeiro semestre, em confrontos entre Israel e Irã, a empresa também demonstrou atuação relevante.
Todavia, o fundamento para a avaliação premium da Palantir, na opinião dos investidores, segue ancorado na demanda do setor privado estadunidense. Por isso, embora o lançamento dos modelos e agents da Anthropic ainda estivesse no estágio de “fantasmas”, o simples fato de atacar o cerne da tese de alto valor justificou a postura cautelosa dos fundos na véspera dos resultados.
No comentário do trimestre anterior, dediquei espaço à discussão do impacto potencial dos grandes modelos de IA sobre a Palantir. Pelo menos no curto e médio prazo, continuamos considerando que o ciclo de alto crescimento da Palantir não chegou ao fim, e o limite de expansão ainda está longe de ser atingido. Dado o tamanho do mercado, é improvável que os efeitos hipotéticos dos grandes modelos de IA se tornem um problema relevante para a Palantir no curto prazo.
Em resumo, o ajuste interno aliado à revisão para cima dos resultados levou a uma clara redução do valuation em relação ao trimestre anterior. Embora o preço das ações ainda não seja considerado “barato”, existe espaço para alcançar múltiplos mais razoáveis. Uma simulação rápida: se supormos crescimento de 60% de receita no próximo ano, a empresa gradualmente entrará no patamar de avaliação das ações de software de alto crescimento observados.
Pelo ritmo, 60% de crescimento anual parece factível para a Palantir no próximo ano, mas isso pressupõe que o ambiente competitivo permaneça tão favorável quanto neste ano. Neste momento, tanto a demanda governamental quanto a empresarial estão em níveis elevados. A entrada mais segura é aproveitar as oportunidades durante os ajustes motivados pelos “contos de IA”.
Análise Detalhada
I. Receita: crescimento acelerado em empresas americanas e no volume de pedidos
O segundo trimestre registrou receita total de US$ 1,94 bilhão, crescimento de 93% anual e 19% trimestral, bem acima das expectativas de mercado (~US$ 1,81 bilhão). O faturamento americano atingiu US$ 1,57 bilhão, alta de 115% ao ano, respondendo por 81% da receita – dependência dos EUA voltou a subir, mas desta vez sem críticas, já que o ressurgimento comercial americano era exatamente o que os investidores aguardavam.

1. Análise por segmentos
(1) Receita de clientes governamentais: Maven consolidado, diversos setores avançando para fase de colheita
No segundo trimestre, receita de clientes governamentais chegou a US$ 990 milhões, avanço de 79% ao ano. A força motriz é o mercado doméstico: receitas de contratos governamentais americanos somaram US$ 809 milhões, crescendo 90% ao ano e 18% em relação ao trimestre anterior.
Foram fechados marcos relevantes com o setor público: o sistema Maven foi oficialmente listado como Programa de Registro do Departamento de Defesa (relatório Piper Sandler de 29/6 detalha: contrato de US$ 480 milhões com o Exército em maio de 2024; acordo de US$ 1 bilhão para 2025; em março de 2024, programa tornou-se permanente); os Fuzileiros Navais mudaram integralmente para o sistema ODIN baseado no Maven em 7 de julho. De projeto para programa formalizado, o financiamento passa de temporário a institucionalizado, ampliando a previsibilidade dos negócios públicos.

As receitas governamentais internacionais giraram em torno de US$ 180 milhões, com alta de 43%, resultado fundamentalmente da execução de contratos britânicos prévios, com poucos novos pedidos.

(2) Mercado comercial: demanda americana accelera, empresas internacionais estáveis
O segmento comercial cresceu 110% para US$ 945 milhões no segundo trimestre.
As receitas de empresas dos EUA saltaram 150%, para US$ 764 milhões, muito acima das expectativas. A ampliação do escopo de pagamento pelos clientes consolidados seguiu avançando, com NDR de 157% (expansão de 57% nos últimos 12 meses).
Alguns casos de clientes ilustram a amplitude da penetração da Palantir: Zeta Global reconstruiu sua nuvem de marketing no Foundry; SAP integrou o AIP à sua cadeia de migração (o próprio CEO, Christian Klein, participou do lançamento); Kirkland & Ellis construiu com AIP uma plataforma de captação para fundos de private equity; Centrus Energy usa AIP para reestruturar a capacidade nuclear americana (identificou US$ 300 milhões em economia de custos); sistema USADA IP, em apenas 62 minutos do lançamento, bateu recorde histórico de registros.
A receita de clientes empresariais internacionais ficou em US$ 180 milhões, crescimento de 25% anual, estável em relação ao trimestre anterior – o aquecimento surpresa visto no Q1 não se provou uma tendência, como já havíamos destacado. Dada a política “America First”, empresas internacionais seguem cautelosas com segurança de dados.

II. Indicadores prospectivos: crescimento de pedidos comerciais desafia narrativa de erosão dos grandes modelos
Para empresas de software, a capacidade de crescer no futuro é o núcleo do valuation. Como a receita confirmada é um indicador atrasado, o acompanhamento do volume de novos contratos se torna central. Chamam atenção: contratos (RPO, TCV), Billings no trimestre, e evolução do número de clientes.
De modo geral, os indicadores do Q2 foram favoráveis e o maior peso dos negócios comerciais ajuda a conquistar mais confiança dos investidores.
(1) RPO (contratos irrevogáveis a serem cumpridos): quase US$ 5 bilhões, maior proporção de contratos de curto prazo
O RPO da Palantir subiu para US$ 4,9 bilhões, o dobro do ano anterior (+102%), aumento líquido de US$ 450 milhões. RPO de curto prazo foi de US$ 2,09 bilhões (+105%), longo prazo de US$ 2,81 bilhões. O crescimento mais rápido do RPO de curto prazo demonstra que a parcela de contratos a serem reconhecidos como receita em até 12 meses está aumentando – indicando maior “qualidade” dos pedidos.

(2) Billings e receita diferida: saudáveis e em aceleração
No segundo trimestre, os Billings foram de US$ 2,07 bilhões, alta anual de 88% e avanço de 18% no trimestre. A contratação de grandes pedidos e o ritmo de pagamentos seguem sólidos. O NDR alcançou 157%, subindo 7 pontos, mostrando clientes existentes cada vez mais fiéis e propensos a atualizar seus planos.

(3) TCV (total de contratos): empresas americanas lideram a alta
No trimestre, o TCV somou US$ 3,37 bilhões, um aumento de mais de US$ 900 milhões, puxado pela demanda nos EUA. O TCV comercial americano foi de US$ 2,13 bilhões, salto de 153% e novo recorde histórico trimestral, influenciado pelo AIPCon 10 de junho;

(4) Crescimento de clientes: empresas americanas seguem liderando o acréscimo
O número de clientes subiu em 42, sendo 41 comerciais (38 empresas dos EUA, 3 internacionais) e 1 governamental. O número de clientes comerciais americanos está em 653, alta de 35% anual. Foram 220 pedidos acima de US$ 1 milhão, 98 acima de US$ 5 milhões e 73 acima de US$ 10 milhões no trimestre, quase o dobro do anterior, mostrando crescimento na profundidade das parcerias.


III. Lucratividade: já em patamar elevado, avanços mais moderados
No segundo trimestre, o lucro operacional pelo padrão GAAP atingiu US$ 912 milhões, margem de 47%, 1 ponto acima do trimestre anterior; somando cerca de US$ 280 milhões em SBC e impostos, o lucro operacional ajustado foi de US$ 1,19 bilhão, margem de 62%, mais 2 pontos trimestre a trimestre. Neste patamar, porém, o espaço para incrementos substanciais diminui.


No fluxo de caixa, a sazonalidade depende da dinâmica de pagamentos dos contratos. No segundo trimestre, o fluxo de caixa operacional foi de US$ 1,22 bilhão, mais do que o dobro do ano anterior; o fluxo de caixa livre ajustado ficou em US$ 1,22 bilhão, margem de 63% (contra 57% no Q1).
No fim do trimestre, o caixa somado a T-bills de curto prazo atingiu US$ 9,2 bilhões, sem endividamento. A orientação de fluxo de caixa livre anual subiu de US$ 4,2-4,4 bilhões para US$ 4,5-4,7 bilhões, e o "Rule of 40" ficou em 155%.

- FIM -
Reprodução autorizada

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